Por que a Psicanálise no Século XXI?
- Henrique Manoel Fagá
- há 6 dias
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Atualizado: há 5 dias

Vivemos em um período em que parece necessário possuir uma resposta imediata para todas as problemáticas que se apresentam. Há, por conseguinte, inúmeras propostas para otimizar o tempo dedicado às tarefas, melhorar o desempenho em diferentes atividades, controlar emoções que interferem no trabalho e até aumentar a produtividade. Entretanto, apesar dessas promessas de solução, observa-se que o sofrimento psíquico não diminuiu; ao contrário, demandas como ansiedade, esgotamento mental, sensação de esvaziamento psíquico e dificuldades nos vínculos sociais tornam-se cada vez mais presentes na rotina contemporânea.
Nesse sentido, a psicanálise permanece atual e extremamente relevante, pois parte de uma constatação que, embora simples, é frequentemente esquecida: nem tudo o que nos atravessa constitui, por definição, um problema passível de resolução imediata. Há conflitos, angústias e repetições que insistem, mesmo quando o sujeito age em conformidade com as diretrizes e modelos oferecidos pelas múltiplas soluções disponíveis.
Em vez de buscar adaptar o sujeito a um ideal de normalidade ou felicidade, a psicanálise se interessa justamente por aquilo que não se ajusta; o que retorna sob a forma de sintomas, impasses ou questões que parecem não encontrar uma resposta definida. O sofrimento, assim, não é compreendido como algo a ser simplesmente eliminado, mas como um sinal de que há algo relevante em jogo na história de cada sujeito; o sintoma, nesse sentido, diz alguma coisa.
No século XXI, somos constantemente convocados a nos definir por meio de rótulos, diagnósticos ou expectativas externas, muitas vezes distantes da forma como nos compreendemos internamente. A psicanálise propõe um caminho distinto, ao apostar na singularidade do sujeito e sustentar que cada processo analítico é único, na medida em que diz respeito a cada pessoa em seu lugar próprio, com sua história, seus afetos e seus modos particulares de lidar com o desejo.
Na prática, isso significa que o trabalho analítico não se fundamenta em aconselhamentos, técnicas padronizadas ou julgamentos pré-estabelecidos. O espaço da análise é, antes de tudo, o espaço da fala: daquilo que emerge nas contradições, nas dúvidas, nos medos e nas repetições que parecem escapar ao sentido imediato.
Em um mundo que promete respostas cada vez mais rápidas e exige constantes adaptações do sujeito, a psicanálise oferece uma direção distinta, na qual o tempo necessário para escutar, compreender e construir modos mais próprios de lidar com o sofrimento é respeitado. Não há promessa de uma vida sem conflitos, mas a possibilidade de transformar a relação que cada um estabelece com eles.
É por isso que, ainda hoje, ou justamente por causa do nosso tempo, a psicanálise continua sendo necessária.



