O Aumento dos Diagnósticos e a Visão Psicanalítica
- Henrique Manoel Fagá
- há 5 dias
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Nas últimas décadas, tornou-se cada vez mais comum ouvir pessoas se apresentarem a partir de um diagnóstico psicológico ou psiquiátrico, como se tais nomeações fossem necessárias para explicá-las ou caracterizá-las. Termos que outrora circulavam sobretudo em contextos clínicos passaram a integrar a vivência cotidiana e o vocabulário corrente: ansiedade, depressão, narcisismo, transtorno, síndrome. Em muitos casos, o diagnóstico surge como uma tentativa legítima de nomear o sofrimento e encontrar algum tipo de orientação, especialmente quando realizado por profissionais qualificados da área da saúde.
Contudo, observa-se também um crescimento expressivo no número de diagnósticos, frequentemente atribuídos de forma apressada e baseados unicamente em listas de sintomas ou critérios padronizados, sem a devida escuta da experiência subjetiva. Embora essas classificações cumpram uma função importante na saúde mental, sobretudo em determinados contextos de cuidado, nem sempre conseguem dar conta da complexidade que atravessa a vivência de cada sujeito.
A psicanálise, nesse sentido, não ignora o uso dos diagnósticos, mas se relaciona com eles de maneira singular. Em vez de tomar o rótulo como um dado fechado em si mesmo, considera-o, quando necessário, como um ponto de partida para outras questões. O essencial, para a psicanálise, não está em enquadrar o sujeito em uma categoria, mas em escutá-lo a partir de sua história, de sua experiência e dos modos particulares que encontrou para lidar com o sofrimento.
Duas pessoas que compartilham um mesmo diagnóstico podem sofrer de formas profundamente distintas. O que está em jogo não é apenas a presença de determinados sintomas, mas o percurso de cada um, suas relações, seus impasses e o sentido singular que o sofrimento assume em sua vida cotidiana. A orientação psicanalítica se sustenta justamente nesse respeito à singularidade, recusando a ideia de que uma classificação psiquiátrica seja capaz de explicar integralmente uma experiência de vida.
Há situações em que o diagnóstico se mostra importante e até oferece certo alívio, ao organizar aquilo que antes se apresentava como caótico e indefinido. Em outros casos, porém, pode se transformar em um peso, funcionando como uma marca identitária ou uma definição rígida para aquilo que ainda necessita de elaboração. Quando o diagnóstico ocupa esse lugar, corre-se o risco de silenciar o que, no sujeito, precisa ser dito com suas próprias palavras.
Na clínica psicanalítica, portanto, o foco não está em confirmar ou refutar um diagnóstico, mas em sustentar um espaço no qual o sujeito possa falar para mais além dele. O sofrimento não é reduzido a um conjunto de sintomas, mas escutado como algo que diz respeito à maneira singular de cada pessoa se relacionar consigo mesma, com o outro e com o mundo que a cerca.



